A REINVENÇÃO DA LITERATURA ORAL EM CORA CORALINA

VIEIRA JÚNIOR, P. A.

Universidade Federal de Goiás – Campus Catalão.

E-mail: pauloantvie@bol.com.br

RESUMO: Considerando-se as afirmações de Walter Benjamin sobre a progressiva extinção do "verdadeiro narrador" na sociedade moderna, este trabalho procura verificar como a escritora goiana Cora Coralina se aproxima daquele "narrador autêntico" de que fala Benjamin. Além do ensaio sobre "O Narrador" de Walter Benjamin nosso estudo toma como pilar de sua fundamentação teórica a obra "Formas Simples" de André Jolles, para, enfim, observar confluências e divergências entre a poética coralineana e as produções de Mario Quintana e Hugo de Carvalho Ramos no que concerne à recuperação das formas populares oriundas do "coração do todo" (conforme Grimm).

PALAVRAS CHAVES: Atualização; Formas Populares.

 

 

Os "verdadeiros narradores", segundo Walter Benjamin, estão em vias de extinção na sociedade moderna. Tal fato comprova-se ao se observar que as pessoas já não conseguem contar histórias que transmitem experiências, sejam elas próprias ou alheias. Cora Coralina recorre com freqüência às fontes orais, recriando lendas, provérbios e cantigas em sua produção literária. Desse modo, a escritora vilaboense apresenta-se como a contadora de histórias (ou estórias, conforme ela mesma prefere dizer), e portadora de experiências comunicáveis, a que W. Benjamin se refere.

Este subprojeto, que se vincula ao projeto de pesquisa Poesia e Memória em Cora Coralina, examina como a autora recria as formas da literatura oral que estão guardadas no "coração do Todo", para usar uma expressão de Jacob Grimm.

Do acervo da escritora estudada, ainda que o interesse do projeto ao qual este subprojeto se vincula recaia, de maneira especial, mas não exclusiva, sobre a obra em verso de Cora (Meu Livro de Cordel, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias mais, Vintém de Cobre: meias Confissões de Aninha), esta pesquisa examina, também, os livros de contos Estórias da Casa Velha da Ponte, Tesouro da Casa Velha, Villa Boa de Goyaz, este último consistindo numa reunião de poemas e contos. A inclusão da prosa no corpus literário examinado justifica-se pelo fato de que a fonte a que a contista recorre em suas narrativas, a exemplo de Guimarães Rosa e de Hugo de Carvalho Ramos, é a experiência que passa de pessoa a pessoa; fonte em que insistem em recorrer os "verdadeiros narradores", numa época (a época moderna) em que as narrativas dos contadores de histórias estão em vias de extinção (Benjamin, 1994, p.197-221).

Para estudar a reinvenção da literatura oral em Cora Coralina, este trabalho toma como pilar de sua fundamentação teórica o livro Formas Simples, de André Jolles. As "formas simples" compreendem as formas de linguagem oral, como o mito, a lenda, a gesta, a fábula, o apólogo, o caso, o provérbio, a advinha, a anedota e o conto popular. São formas que se encontram incrustadas na língua, criadas por uma fala desconhecida, mas fora já da dependência individual, como resíduos de criações primitivas que sobrevivem na memória popular.

Assim como foi proposto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica em que se recorreu à obra completa da autora, publicada até o presente momento.

Destarte, realizamos um estudo comparativo entre a produção de Cora Coralina, a contística de Hugo de Carvalho Ramos e a poética de Mario Quintana, em que se leva em consideração as confluências e as divergências que o ficcionista goiano e o poeta gaúcho estabelecem com a "rapsoda da casa velha da ponte" no que se refere à escritura da oralidade.

Utilizamos em nosso estudo o ensaio de Gilberto Mendonça Teles A enunciação poética de Mario Quintana, que auxilia na comparação entre Cora e Mario Quintana. Assim verifica-se que Mario Quintana foge à convenção literária ao atualizar as formas simples em que se recupera o provérbio, por exemplo, para construir outro texto. A isso G.M. Teles afirma que "não se trata de uma simples transposição de elementos da língua para uma fala literária" (1985, p.240), uma vez que se encontra uma via intermediária entre a tradição que deve respeitar e as formas e idéias novas que defende. Cora por sua vez, atualiza sua própria existência, ou mesmo, sua experiência memorialística, pois a maior parte de seus poemas possui o registro de uma vida

A obra de David Gonçalves (Atualização das formas simples em Tropas e Boiadas), esclarecedor quando se compara a atualização das "formas simples" em Cora e Hugo de Carvalho Ramos, permitiu que observássemos que a atualização de formas populares na produção coralineana ocorre de maneira semelhante à realizada em Tropas e Boiadas. Hugo e Cora pertencem à tradição de escritores que atualizam o causo no discurso literário, sendo que ambos adotam a narrativa fantástica ao realizarem atualizações de narrativas populares. Ocorre, no entanto, que em Cora pode-se encontrar casos pertencentes ao fantástico maravilhoso, segundo a classificação de Todorov, em que o sobrenatural prevalece em função da falta de explicação coerente para os fatos ocorridos, enquanto na prosa carvaliana não se encontra nem mesmo o fantástico maravilhoso vislumbrado na velha rapsoda de Villa Boa. Carvalho Ramos se limita ao fantástico e ao estranho (Gonçalves; 1981:80), vez que os fatos apresentam-se, a priori, inexplicáveis e sobrenaturais, mas logo são desmistificadas, obtendo uma explicação precisa e lógica (Todorov, 1975, p.51).

Desse modo, constata-se, através de pesquisa bibliográfica, que a poeta goiana Cora Coralina é o artesão da palavra do qual Benjamin se refere, vez que recorre frequentemente às "estórias" populares para construir a sua fala, o que se comprova ao se observar que a procedência de grande parte de suas narrativas é atribuída à sua bisavó, e as experiências que tenta transmitir serem calcadas em uma experiência pessoal ou alheia que ouviu contar.

As experiências pessoais que Cora Coralina registra em sua poética almeja transmitir ensinamentos às novas gerações. Assim recorre com freqüência aos provérbios e ditados que concentram uma experiência de vida ratificada e conhecida por todos.

A utilização de formas populares no texto de Mario Quintana apresenta-se de maneira diferente da encontrada em Cora. Enquanto esta tenta apreender a sabedoria que encerra, ou a forma taxativa e impositiva em que eram empregados os provérbios, o poeta gaúcho reformula tais formas.

Em relação ao escritor Hugo de Carvalho Ramos, Cora se mostrou mais ousada por explorar ainda mais a imaginação do leitor com o registro de narrativas fantástico-maravilhosas.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CORALINA, Cora. Estórias da casa velha da ponte. 9 ed. São Paulo: Global, 2000.

______. Meu livro de cordel. 5 ed. São Paulo: Global, 1976.

______. O tesouro da casa velha. 3 ed. São Paulo: Global, 1989.

______. Poemas dos becos de Goiás e estórias mais. 18 ed. São Paulo: Global, 1986.

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______. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 5 ed. São Paulo: Global, 1987.

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RAMOS, Hugo de Carvalho. Tropas e Boiadas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1965.

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